Abraão Correia da Silva
Eu, Abraão C. da Silva, filho de Manoel C. Silva e de Laura Ferreira Santos, nasci em Vitória da Conquista BA. A minha mãe é empregada doméstica e meu pai é comerciante de cereais, no dito popular barraquinha na feira. Eu tenho oito irmãs no total. O meu pai separou-se da minha mãe quando eu tinha por volta de oito, nove ou dez anos, não sei ao certo. As outras irmãs são por parte de pai e eu conheço e convivi muito bem com elas. São as irmãs por parte de mãe com quem eu convivo mais , sendo o segundo filho entre os oito.
Fui pra São Paulo com a idade de três a quatro anos e fiquei até os sete anos. Estudei o primeiro ano em São Paulo e voltei para Conquista. Na verdade minha mãe foi trabalhar em São Paulo para comprar uma casa, só que não deu certo. Teve que voltar, porque as minhas irmãs ficaram com a minha avó e não deu certo. Em Conquista voltei a estudar, no primeiro ano fiz o primeiro ano a, no ano seguinte o primeiro ano b e no seguinte o primeiro ano c. Neste meio tempo estudei cinco anos o primeiro ano, o b que na verdade seria o segundo, e o terceiro seria o c, ao certo não sei como explicar o meu estudo, foi meio confuso. A dificuldade que eu tinha na época era em relação a material escolar, pois eu sempre fiquei com as sobras ou estudava com livros dos colegas. Tímido do jeito que eu era, pedia uma ou duas vezes no máximo, às vezes eu conseguia, outras não, passava muito constrangimento por não ter livro. Quando a minha mãe conseguia, já era no segundo semestre, perto de provas finais, mas com todos estes sacrifícios não aprendi muito a escrever e ler.
Trabalhei com minha mãe na plantação de capim. Ai que é vida sofrida, levantar às quatro horas da manhã e esperar o caminhão.Todo mundo na carroceria chegava na fazenda tremendo de frio. Era uma vida muito sofrida. Já fui pra fazenda de café na época da colheita, já puxei muita cobra no rastelo. Com quinze anos fui trabalhar em posto de gasolina, lavava carro, engraxava cruzeta de carreta, troca de óleo, enfim sempre fazendo tudo. Não deu certo, perdi o emprego e não consegui outro.
Então de Conquista fui para Salvador trabalhar em pintura de parede em escola. Morávamos na escola mesmo e trabalhávamos de empreitada. Não tínhamos um momento de lazer, só trabalhava por produção.
Voltei para Conquista com dezoito anos na fase do exército. Servi o tiro de guerra no segundo semestre de 79. Em 79 mesmo fui para o Rio de Janeiro com um primo. Segundo ele disse para a minha mãe, íamos para a casa da irmã dele em São Conrado .
O meu primo conseguiu convencer a minha mãe para que nós viajássemos, e ela deixou, mas com muitas recomendações, que se não desse certo, voltássemos de imediato. Fui para o Rio de Janeiro e não foi nada daquilo que o meu primo disse. Não tinha lugar na casa da tal irmã e fomos para um albergue. Pegamos uma fila enorme para fazer o cadastro e não conseguimos vaga, pois tinha uma quantidade certa, e nos mandaram para o albergue de Niterói. Colocaram na perua uma média de 15 pessoas, nos cadastramos e ficamos 5 dias.Conseguimos emprego na sinal de marinha Ma Isa, um estaleiro de navio. Pegamos as ferramentas e os uniformes, nos deram alojamento e tíquetes de refeição para o mês inteiro. Eu e meu primo não trabalhamos no primeiro dia por ter faltado ferramenta, ficaram 5 ou 6 sem ferramentas. Ficamos o dia inteiro sem fazer nada e não podíamos sair do estaleiro. Saímos para almoçar no barzinho que aceitava os tíquetes de refeição. Conversando com o dono do estabelecimento, ele nos informou que compraria os tíquetes. Fomos até a firma conversar com o contratante .Chegando lá, o mesmo não se encontrava. Estava um outro e pedimos a ele os documentos, que não íamos ficar. O mesmo nos devolveu os documentos e fomos embora. Saímos de Niterói e fomos para o Rio de Janeiro.
Chegando no Rio por volta das 8:00 horas, precisávamos de um ponto de apoio. No albergue não podíamos ir, então fomos para a delegacia pedir para o delegado apoio por uma noite. O delegado nos deu guarita por uma noite. No dia seguinte fomos para Copacabana. Ficamos o dia inteiro na praia, cães farejadores farejaram a minha mochila e policiais fizeram perguntas se eu era usuário de entorpecente. Eu disse que não e eles foram embora. Passei por um grande susto. Ao anoitecer, fomos para a rodoviária e compramos passagens para São Paulo. Chegando à São Paulo, no dia 20 de dezembro, com o meu primo na rodoviária da Luz fomos para o Ibirapuera. Eram 8:00 horas. Eu fiquei na parte dos eucaliptos e o meu primo deitou entre eles e mandou que eu deitasse , pois mais tarde nós iríamos para a Vila Joaniza, onde a nossa tia morava. Viemos a acordar por volta das 14:00 horas. Estávamos com fome e meu primo me enrolando, sem querer me levar. Por fim me levou, me deixando na porta da casa da nossa tia. Ele não quis entrar e nos despedimos. Ele sumiu e, alguns anos depois, tive notícia dele. Tinha voltado para o Rio. Eu fiquei e trabalhei dois anos, depois voltei para Conquista em 81. Fiquei em Conquista um ano sem conseguir emprego.
Voltei para São Paulo em 82 e aqui estou. Conheci uma garota através de trote, que uma prima dela passou. Com esta brincadeira eu conheci a minha esposa. Foi muito difícil, pois eu trabalhava como segurança na Sharp, terceirizado e à noite. Por fim ela aceitou namorar comigo. Neste meio tempo ela ficou grávida de uma menina que nasceu em 86. Fomos morar juntos e juntos estamos até hoje. Só tivemos uma filha e houve muitas complicações neste meio tempo.A minha esposa não pode mais ter filho e aí uma prima da minha esposa nos ofereceu uma criança para criarmos. Ficamos apreensivos com isso, pensamos e conversamos muito com a nossa filha e ela aceitou. Explicamos para ela que é para sempre com tudo isto . Pensamos e demos a resposta que sim. A criança nasceu em 96 e era um menino lindo. Fomos para um cartório registrar a criança no nome da mãe biológica por orientação do juiz. Ficamos oito meses caminhando com o processo. A assistente social nos fez uma visita e visitou a mãe biológica também. Por fim o juiz nos deu a guarda definitiva. Comemoremos muito e hoje estamos com um garotão de15 anos. Esta é a minha história. Fim.