Maria das Graças do Nascimento
Eu, Maria das Graças do Nascimento, nasci em agosto de 1982.
Filha de Margarida Calaça e Antonio Mariano, eu, Maria, não fui igual a todas as outras crianças porque não frequentava a escola porque tinha que trabalhar dentro de casa.
Quando eu era criança, minha mãe me deu para uma família criar. Eu tinha que trabalhar para a família. Ia para roça e buscava as vacas no pasto. Tinha que ir buscar água para toda a família. Tinha que carregar água na cabeça para todo mundo tomar banho. Eu fazia isso todos os dias. Quando a esposa do meu primo mandava eu ir buscar água eu começava a chorar porque já pensava nas cobras que estavam lá. Todas as vezes que eu ia buscar água tinha uma me esperando no mesmo lugar. Eu entrava em pânico, mas pedia a Deus que me protegesse delas. Elas ficavam olhando pra mim. E eu ficava desesperada, mas elas passavam por mim e iam embora.
Eu pedia a Deus que um dia minha mãe fosse me buscar naquele inferno. Até que um dia ela apareceu. Fiquei feliz. Finalmente fiquei livre e fui embora. Fui morar com o filho da minha madrinha por um tempo.
Aos doze anos vim para São Paulo morar com uma tia. Fiquei feliz em saber que a cidade grande não tinha cobras. Durante sete anos não vi nenhuma.
Conheci o pai da minha filha e fiquei grávida. Resolvi ir para o Ceará ter a minha filha lá e pensei nas cobras. Mas pensei que elas tinham acabado. Um belo dia, já estava de seis meses de gestação quando resolvi dormir numa casa que minha mãe tinha próximo da roça. Ela não tinha luz. Oque clareava era lamparina. Durante o dia foi tudo bem, mas à noite fui dormir e ouvi um barulho nas telhas. Chamei minha mãe e ela acendeu a lamparina e não viu nada. Mas de manhã descobri que aquele barulho era uma cobra enrolada nas telhas. Minha mãe tentava por ela para fora e ela ficava olhando pra mim e o medo voltou de novo.
Em todos os lugares que eu ia ficava com medo. Enfim, minha filha nasceu e voltamos para São Paulo e não quero ver cobras nunca mas na minha vida.
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